A cada ano que passava ela ia piorando, ela ia decaindo, sempre prometendo melhorar da próxima vez. Os tempos foram passando e apenas as promessas e dificuldades permaneciam, ela se esquecia, esquecia de tudo e deixava a vida ir levando. As notas foram caindo, as broncas foram aumentando, os professores começaram a reparar, de boa aluna ela se tornou mais uma ‘vagabunda’. As coisas foram acontecendo e ela não percebia, ela errou tanto e acabou desistindo, desistindo das lições, desistindo das aulas, desistindo de um ‘futuro promissor’. Foi sem querer que tudo aconteceu, foi sem intenção, foi uma coisa idiota e sem razão, cada ano, cada mês, a cada dia que passava os problemas aumentavam. E no final das contas ela não conseguia mais pensar na escola, não conseguia mais ver motivos para tirar notas altas, não entendia porque história, matemática ou educação física eram mais importantes que a vida, eram mais importantes do que problemas e coisas reais que estavam acontecendo naquele momento.
Ela não era do tipo que pensava no futuro, e sim do que achava que não viveria tempo o bastante para desenvolver uma ‘careira’, e já que não acreditava muito em nada disso, porque se importaria tanto com o colégio? Na cabeça dela não fazia sentido perder uma hora fazendo uma lição enquanto ela poderia estar andando por ai, ela podia estar com outros amigos, ajudando alguém, observando a cidade, vendo o tempo passar e ninguem notando isso. Era tudo diferente agora, tudo era tão intenso e importante, necessitava de toda a atenção do mundo, a escola? A escola teria que esperar um pouco mais, esperar a poeira baixar, as coisas se acalmarem e os problemas diminuírem, porque naquele momento os estudos eram a coisa mais insignificante que ela poderia pensar.
Na escola, enquanto as notas quase desapareciam e as recuperações eram mais do que já havia tido na sua vida inteira, ela não ligava mais para absolutamente nada, pensava no agora e o amanha ficava pro conta do destino. No fundo até que se sentia mal pro seu péssimo desempenho, bem no fundo ela gostaria de ser a melhor aluna da classe, de tirar notas boas e ser um orgulho para seus pais, mas isso era apenas um desejo estúpido. Afinal, ela já havia tirado notas boas, mas não era a pessoa mais esperta do mundo, ela não conseguia dar conta de tudo, era meio desorganizada e desleixada. Não tinha capacidade o suficiente para ir bem na escola e na vida social e familiar, ela não conseguia se quer dar conta apenas dos seus problemas, ela complicava tudo, não sabia direito o queria, não sabia direito como conseguir.
Enquanto seus amigos faziam lição ela ia para o computador, e quando as pessoas a perguntavam o que ela gostaria de ser, ela respondia psicóloga. Respondia sem a menor intenção de se formar, de cursar a faculdade, ela respondia de um jeito seco e sem emoções, apenas queria aprender sobre a vida, queria compreender os outros, ela queria compreender a si mesma. E se esforçava para isso, se empenhava naquilo que achava importante para conseguir entender tudo aquilo que queria, ela não era burra ou ignorante, podia até parecer, mas sabia bem o que fazia, fazia escolhas, e acima de tudo, ela construía sua vida, sua vida que estava acontecendo naquele momento e não o que poderia acontecer daqui a alguns anos.

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